3. BRASIL 17.10.12

1. A JUSTIA FEZ HISTRIA
2. O DILEMA DO VENCEDOR
3. A GRANDE BATALHA PT E PSDB
4. NOVO GOLPE NO TRFICO

1. A JUSTIA FEZ HISTRIA
O Supremo condena Jos Dirceu, Jos Genoino e Delbio Soares, os chefes do PT, como mentores, operadores e beneficirios do maior escndalo de corrupo da histria.
DANIEL PEREIRA

     Um projeto popular conquista pela primeira vez o poder no Brasil. Lula assume a Presidncia determinado a reparar 500 anos de injustia. Em nome dessa utopia mope mas nobre, alia-se a partidos que repudiava e tachava de fisiolgicos e corruptos. Para arregiment-los e garantir que no fossem empecilho s reformas profundas que pretendia implementar, manda o PT pagar as dvidas de campanha dos novos companheiros do PTB, do PP, do PR e do PMDB, lanando mo de recursos no contabilizados, conforme expresso cunhada pelo ex-tesoureiro petista Delbio Soares. Como o dinheiro  disposio  insuficiente, o PT contrata emprstimos em dois bancos para saldar os dbitos de sua base aliada. At o ento presidente do partido, Jos Genoino, numa demonstrao do mais puro altrusmo, empenha seu parco patrimnio pessoal como garantia dos emprstimos. Descoberta a operao clandestina que oficialmente movimentou 153 milhes de reais, Lula e seu brao direito Jos Dirceu admitem a montagem do milionrio esquema de caixa dois, que seria o preo a ser pago para tirar o Brasil do atraso, reduzir o nmero de pobres, permitir que cada brasileiro fizesse pelo menos trs refeies por dia  enfim, levar  frente a to sonhada justia social pela qual o partido sempre lutou. Caixa dois  e nada alm disso. Uma pequena infrao, um atalho justificvel em nome de um bem maior. Nada de desvio de verbas pblicas. Nada de corrupo. Nada de compra de apoio parlamentar no Congresso. Nada de mensalo. O PT cometera um singelo crime eleitoral, usado como arma por setores conservadores para desbanc-lo do poder, para cessar as mudanas estruturais, para impedir a revoluo que acontece no Brasil. O PT  vtima de um golpe das elites  imprensa, Justia, os ricos, os poderosos. Essa  a verso do partido. Essa era a farsa.
     Na semana passada, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) terminaram de montar o quebra-cabea no qual trabalhavam desde agosto. Composto atualmente de dez ministros, dos quais sete indicados por presidentes petistas, o plenrio da corte condenou a cpula do PT, os chefes Jos Dirceu, Jos Genoino e Delbio Soares, por corrupo ativa  no caso, subornar parlamentares no primeiro mandato de Lula. Segundo os ministros, o esquema de corrupo foi financiado com dinheiro surrupiado dos cofres pblicos e com emprstimos fraudulentos contrados pelo PT que jamais seriam pagos. Esses emprstimos serviram apenas para patrocinar uma tentativa fracassada de esconder a origem e o destino da dinheirama suja. Alm de rechaarem com ironias a tese do caixa dois, os ministros fizeram questo de reconhecer com todas as palavras a existncia do mensalo, o maior escndalo de corrupo da histria poltica do pas. Ex-filiado ao PT, o presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto, deu um passo alm na condenao dos antigos correligionrios. Britto disse que, se houve tentativa de golpe, ela partiu do prprio partido, que apostou na compra de parlamentares para solapar a democracia e se perpetuar no poder. No havia altrusmo algum  de ningum. Eis a histria real, contada pela maioria esmagadora de votos da mais alta instncia de Justia do pas. Eis a verdade que o PT tentou esconder.

A FARSA DO NO SABIA
O ex-ministro da Casa Civil  responsvel pelo crescimento do PT,  tido como o idelogo da eleio de Lula em 2002 e agora  tambm o grande artfice do mensalo.
DANIEL PEREIRA

Jos Dirceu CONDENADO
CRIME: corrupo ativa
PENA: de 2 a 20 anos de priso
PRXIMA ETAPA: ser julgado por formao de quadrilha
PENA: de 1 a 3 anos de priso

     Jos Dirceu confessou certa vez que no leu O capital, a obra de Karl Marx que encantou o corao e a mente dos petistas acadmicos. Poltico profissional por excelncia, pragmtico, ele nunca perdeu tempo com ideologias. O negcio de Dirceu sempre foi o poder. Conquist-lo e preserv-lo independentemente das doutrinas e dos meios empregados. Foi esse pragmatismo  somado  ambio para escalar o panteo dos poderosos  que fez dele um protagonista da ascenso do PT ao comando do pas. Dirceu profissionalizou a legenda na dcada de 90, transformando-a na mais azeitada engrenagem partidria brasileira. Depois, dedicou-se  reconstruo da imagem de Lula, do sindicalista radical de 1989 ao Lulinha paz e amor de 2002, que finalmente conquistou a Presidncia da Repblica depois de trs tentativas frustradas. Os servios prestados durante essa caminhada renderam prestgio a Dirceu. No PT, ele se tornou dolo da militncia e o lder consultado pela direo da sigla antes de cada deciso tomada. No governo Lula, assumiu o cargo de chefe da Casa Civil  ou de capito do time, de primeiro-ministro, como gostava de dizer para alimentar a prpria fama.
     A conquista do Palcio do Planalto, porm, no bastava a Jos Dirceu. A meta era perpetuar o PT no poder, e no apenas para Lula desfrut-lo. Dirceu tambm queria ser presidente da Repblica. Ele sabia que trabalhar por Lula  de quem recebera carta branca para garantir a vitria na eleio de 2002  era trabalhar para ele prprio. Os projetos de poder dos dois, imaginava, caminhavam de mos dadas. Por isso, Dirceu foi a campo com uma desenvoltura inaudita. Como coordenador do ministrio do novo governo, escalou petistas de confiana para postos estratgicos da administrao. Dirceu centralizava com mos de ferro as nomeaes para cargos pblicos, usando-as para manter prceres petistas na sua rbita. Como coordenador poltico do novo governo, costurou os acordos com cada um dos partidos aliados. Foi o fiador da chamada governabilidade. O arquiteto de uma aliana que, se bem-sucedida, poderia consolid-lo como favorito  sucesso de Lula.
     Essa aliana uniu antigos desafetos do PT, caso do ex-presidente Jos Sarney (PMDB), e partidos que at ento eram considerados fisiolgicos pelos petistas, como o PR e o PTB. quela altura, j estava claro que Lula e Dirceu no sentiam nenhum constrangimento em mudar de opinio como quem troca de roupa. S no estava claro, no entanto, que eles haviam abandonado os escrpulos de conscincia e os princpios ticos dos tempos de oposio. Tudo em nome do projeto de poder. Projeto que, no caso especfico de Dirceu, est definitivamente sepultado. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o petista por corrupo ativa, juntamente com o ex-presidente do PT Jos Genoino e o ex-tesoureiro Delbio Soares. Dirceu foi apontado como o mandante do esquema que subornou parlamentares, com dinheiro desviado dos cofres pblicos, em troca de apoio ao primeiro mandato do presidente Lula. Ele ainda ser julgado por formao de quadrilha. Se for considerado culpado, receber pelos dois crimes uma pena que pode chegar a 23 anos de priso. Dirceu corre o risco de se tornar o poltico de maior envergadura da histria nacional a expiar seus pecados na cadeia. Um caso raro de preso poltico na ditadura que acabaria como poltico preso em pleno regime democrtico.
     To logo foi confirmada a sua condenao por corrupo ativa, Dirceu se disse  como faz desde a descoberta do esquema do mensalo  vtima de uma conspirao entre setores da elite, da imprensa e do Judicirio, que no aceitariam a ascenso de um projeto popular ao poder. Numa carta endereada ao povo brasileiro, ele lembrou sua contribuio na luta pela democracia, queixou-se de ter sido transformado em inimigo pblico nmero 1 e, como o ex-presidente Lula, repetiu a cantilena petista que denuncia a existncia de um golpe destinado a desbancar o PT da Presidncia. Fui prejulgado e linchado. No tive, em meu benefcio, a presuno da inocncia. O Estado de Direito Democrtico e os princpios constitucionais no aceitam um julgamento poltico e de exceo, afirmou Dirceu no texto. Lutei pela democracia e fiz dela minha razo de viver. Vou acatar a deciso, mas no me calarei. A carta no comoveu antigos aliados  nem mesmo aqueles que, com os mandatos presidenciais petistas, passaram a ter o apoio devidamente remunerado com verbas pblicas. Ao contrrio. Os companheiros no saram s ruas em sua defesa. Na quarta-feira, em So Paulo, as poucas manifestaes de populares foram de censura ao ex-ministro, que deixou um encontro em sua homenagem a bordo de carro blindado e debaixo de vaias.

Um projeto de poder foi arquitetado, que vai muito alm de um quadrinio quadruplicado.  continusmo governamental. Golpe, portanto, nesse contedo da democracia, que  o republicanismo, que postula renovao dos quadros de dirigentes. - MINISTRO CARLOS AYRES BRITTO, presidente do Supremo.

O MENSALO FOI UMA BURRICE
HUGO MARQUES
O juiz aposentado Silvio Mota foi um dos comandantes do grupo ttico armado da Ao Libertadora Nacional (ALN) e integrou as fileiras do Movimento de Libertao Popular (Molipo)  duas organizaes guerrilheiras comunistas que atuaram durante a ditadura militar. O magistrado, que conheceu o ex-ministro Jos Dirceu em 1969, quando ambos faziam treinamento militar em Cuba, hoje dirige a Casa de Amizade Brasil-Cuba e coordena a Comisso em Defesa da Memria, Verdade e Justia do Cear. Na entrevista, ele fala das lembranas que guardou dessa relao, que durou at 1974. Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Dirceu voltou ao Brasil e passou a viver escondido no interior do Paran. Silvio ficou em Cuba at a anistia.

Como o senhor v a condenao do ex-ministro Jos Dirceu? 
Fico triste. Eu queria que o Dirceu fosse absolvido. Ele j pagou. Com todo o aperreio que passou, acho que j pagou.

O senhor concorda com a tese dos condenados de que o julgamento  poltico? 
No vou discutir temas jurdicos com o Supremo. O diabo  que no d nem para discutir, pois a tese deles  a mesma que serviu para condenar o Fujimori (Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru, condenado a 25 anos de priso por chefiar paramilitares que mataram 25 pessoas).

Como era o companheiro de militncia Jos Dirceu? 
O Dirceu era preguioso e egosta. E continua sendo preguioso e egosta.

Por qu? 
Ele fazia tudo pela metade. Na hora do treinamento, do trabalho, de repente tinha uma dor nas costas. O homem faltava e, quando a gente ia ver, estava assistindo a filmes. Olha os projetos que ele tinha!

E o egosmo? 
O Dirceu se preocupava apenas com seus projetos pessoais. Sempre notamos isso. Ele era uma pessoa famosa, fazia amizades, as pessoas o procuravam. Era amigo de gente influente em Cuba, o que lhe garantia alguns privilgios.

O ex-ministro chegou a combater a ditadura militar? 
Eu acho quase impossvel. Por que diabos o pessoal iria botar o Dirceu para combater? Seria um estorvo. A nica coisa relacionada  atividade de guerrilha urbana que consta que ele teria feito, salvo engano, foram levantamentos em So Paulo. A gente fazia muita loucura. Mas mandar um cara como o Dirceu reconhecer o terreno seria um absurdo.

O senhor esteve sempre ao lado de Jos Dirceu em Cuba? 
Eu cheguei dias depois dele, em 1969. Houve uma poca em que eu o via diariamente. Depois, comecei a trabalhar nas brigadas de construo industrial, mas ele no estava l. Imagine o Dirceu trabalhando numa brigada de construo industrial...

Vocs moravam no mesmo acampamento? 
Sim. Ele era boa-praa, a gente conversava. S tem esse problema, como j disse:  preguioso e egosta, e acabou se lascando por causa disso. O Dirceu, no entanto,  inegavelmente uma liderana do PT. Isso ele , sempre foi. O papel dele na histria do Brasil  enorme. Ele  o homem que liderou o movimento estudantil. Tem carisma, habilidade. Mas o mensalo foi uma burrice.

A FARSA DA BIOGRAFIA
Jos Genoino foi alado ao posto de lder mximo do PT, acumulando a operao do esquema de compra de partidos e a de suborno de parlamentares.
ADRIANO CEOLIN

Jos Genoino CONDENADO
CRIME: corrupo ativa
PENA: de 2 a 20 anos de priso
PRXIMA ETAPA: ser julgado por formao de quadrilha
PENA: de 1 a 3 anos de priso

     Em 1972, Geraldo no tinha sobrenome. Era apenas mais um dos jovens que se embrenharam nas matas do sul do Par, membro de um grupo guerrilheiro que pretendia implantar uma ditadura comunista no Brasil. Preso, torturado e condenado pelos militares, o estudante Jos Genoino Neto se transformaria, a partir dali, num cone da esquerda, um smbolo da resistncia, um heri sobrevivente. Afinal, poucos tiveram uma segunda chance. Dos seus 97 antigos companheiros que foram guerrear no Araguaia, 65 ainda so contabilizados como desaparecidos. Quarenta anos depois, desta vez num ambiente plenamente democrtico, Genoino enfrentou um novo julgamento  e foi condenado outra vez, agora por corrupo ativa. Como presidente do PT, ele participou diretamente da montagem do mensalo, o esquema que seu partido criou para subornar parlamentares no Congresso Nacional  o pior dos golpes contra a democracia desde que ela foi instalada no Brasil.
     Quando explodiu o escndalo do mensalo, em 2005, Jos Genoino era o representante mximo do poder do partido. Sua primeira manifestao para a histria veio por meio de nota: a denncia no tinha o mnimo fundamento na realidade. Um ms depois, revelou-se que Genoino, ao contrrio do que dissera, estava diretamente envolvido no escndalo. Como presidente do PT, sua assinatura aparecia junto com a do tesoureiro Delbio Soares e a do publicitrio Marcos Valrio como avalistas de um emprstimo tomado pelo partido no banco BMG. Indagado, Genoino negou de novo: Nunca. Ele ( Valrio) nunca foi avalista do PT. No tem isso, no. A publicao do contrato no qual apareciam as assinaturas do trio desmentiu mais uma vez o deputado, que partiu para uma terceira guerrilha contra os fatos, dessa vez admitindo o que antes havia negado: Ele (Valrio) foi avalista porque nossos bens individuais no eram suficientes (para o emprstimo). O elo entre os personagens principais do caso comeava a se fechar. A medida que as investigaes avanavam, o mito Genoino comeou a mitigar. Ficou demonstrado que o deputado participava das negociaes polticas com os partidos burgueses e, ao mesmo tempo, buscava dinheiro para compr-los. Em 2006, um ano depois do escndalo, Genoino ainda conquistou um novo mandato, o sexto. Seu capital poltico, porm, foi minguando. Em 2010, j denunciado pela Procuradoria-Geral da Repblica como um dos integrantes da quadrilha do mensalo, o deputado no conseguiu a reeleio. Como consolao, ganhou um cargo de assessor especial no Ministrio da Defesa, no qual permaneceu at a semana passada, quando foi anunciada sua condenao pelo STF. Retiro-me do governo com a conscincia dos inocentes. No me envergonho de nada, disse. Sua pena pode chegar a 23 anos de cadeia. A defesa ainda invocou o histrico de Genoino de luta pela democracia e sua falta de apego material. Mas no era toda a biografia dele que estava em julgamento. Era apenas a parte mais infame. 

Jos Genoino era um interlocutor poltico do grupo, o presidente do partido que estava envolvido nessa tramoia. - MINISTRO MARCO AURUO MELLO, do Supremo Tribunal Federal.

A FARSA DO CAIXA DOIS
O ex-tesoureiro do PT assumiu a responsabilidade pelo esquema do mensalo imaginando que tudo ficaria reduzido a um simples caso de infrao eleitoral.
RODRIGO RANGEL

Delbio Soares CONDENADO
CRIME: corrupo ativa
PENA: de 2 a 20 anos de priso
PRXIMA ETAPA: ser julgado por formao de quadrilha
PENA: de 1 a 3 anos de priso

     O ex-tesoureiro Delbio Soares tinha planos auspiciosos para o futuro. Absolvido, pretendia se candidatar a deputado federal por seu estado, Gois. Eleito, teria um atestado inequvoco de que era quem dizia ser e fizera tudo da maneira mais correta possvel  a deturpada estratgia de purgao eleitoral petista. Mas os fatos so teimosos. Em plena festa para comemorar seu aniversrio de 50 anos, quatro meses depois da entrevista em que Roberto Jefferson exps as vsceras do esquema de compra de votos no Congresso Nacional, Delbio disse que o mensalo viraria uma piada de salo. Ele apostava que, com o tempo, as denncias seriam esclarecidas e esquecidas. Um tremendo erro de clculo do professor de matemtica que conheceu a fama como arrecadador da primeira campanha vitoriosa de Lula ao Palcio do Planalto e ganhou de vez a ribalta como o chefo do cofre do maior esquema de corrupo da histria do pas.
     Condenado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, a nica certeza do tesoureiro  a que agora se apresenta no horizonte: a cadeia. De tanto conviver com Lula, seu amigo do peito h mais de trinta anos, Delbio aprendeu a arte da autoconfiana. No caso do mensalo, ele reverberava o mantra petista: at os ministros do Supremo marcarem o julgamento, o crime de caixa dois de campanha j estaria prescrito. Resumindo, Delbio poderia assumir sozinho a responsabilidade pelos pagamentos aos deputados e aos partidos, sem medo de ser feliz. Com seu jeito de matuto, aceitou silente a sua expulso do PT, constrangimentos e humilhaes. O PT  meu projeto de vida, repete o ex-tesoureiro, cujas penas podem chegar a 23 anos de cadeia, somando os crimes de corrupo ativa, pelo qual j foi condenado, e formao de quadrilha, a ser julgado nos prximos dias.
     Delbio Soares tinha papel de proa no mensalo. Foi ele quem ps a mo na massa para fazer funcionar a mquina de corrupo comandada do Palcio do Planalto. Para manter o duto financeiro azeitado, ele recorreu aos prstimos do empresrio mineiro Marcos Valrio, cujos interesses no governo federal eram atendidos em troca do dinheiro que permitia a compra de parlamentares. Cabia a Delbio comunicar a Marcos Valrio a quem e quanto pagar. A ascenso de Delbio no partido coincidiu com uma repentina mudana de hbitos. O simplrio professor assalariado passou a circular em carros de luxo, usar roupas de grife, fumar charutos e beber vinhos caros.
     O ex-tesoureiro agia com o aval e o conhecimento de seus superiores na hierarquia petista. Era to ntimo do ex-presidente Lula que entrava no Planalto sem ser anunciado. Uma intimidade que no fazia muita questo de esconder. Delbio chegou a ser fotografado segurando uma cigarrilha que o presidente tentava fumar sem ser percebido. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, participava de reunies, para tratar de assuntos de interesse do governo, com Jos Dirceu e financiadores do mensalo. Cuidar do caixa de campanha de Lula lhe abriu muitas portas. Mas nem tudo saiu como o combinado  ou como o prometido. Nem a piada foi de salo.

Acho estranho e muito grave que algum diga com toda a tranquilidade que houve caixa dois. Caixa dois  crime. Caixa dois  uma agresso  sociedade brasileira. Mesmo que tivesse sido s isso, no  pouco. - MINISTRA CRMEN LCIA, do Supremo Tribunal Federal

CADEIA NO HORIZONTE
Os ministros ainda vo definir as penas dos mensaleiros condenados.

     Depois de dois meses e meio, o julgamento do mensalo entra na reta final. A fase atual, em que os ministros decidem se os rus so culpados ou inocentes, deve acabar em, no mximo, duas semanas. O passo seguinte ser a definio das penas de cada condenado. Com base em contas preliminares feitas por seus advogados, os rus j comeam a ter ideia de quanto tempo passaro na cadeia. Jos Dirceu, por exemplo, calcula que dever passar, no mnimo, dois anos em regime fechado. Com a priso no horizonte, tanto Dirceu quanto o ex-presidente do PT Jos Genoino j mandaram preparar procuraes transferindo a familiares poderes sobre seus bens e contas bancrias. Os clculos dos advogados so mera estimativa. Especialmente porque a dosimetria das penas, como  chamada a etapa em que os ministros definem o tempo de priso de cada condenado,  complexa e repleta de fatores subjetivos. Primeiro, cada ministro fixa uma pena-base, entre a mnima e a mxima previstas em lei. Essa definio leva em conta as circunstncias do crime, antecedentes, grau de culpabilidade e os motivos e as consequncias do delito. Na sequncia, o tribunal passa a avaliar se h agravantes ou atenuantes, o que pode aumentar ou diminuir a pena-base.
     Dado o ineditismo de um julgamento criminal envolvendo tantos rus, o tribunal ainda ter de decidir como conciliar as penas aplicadas por cada um dos ministros: se valer uma simples mdia ou se a pena ser a estipulada pela maioria. Concluda essa matemtica, o plenrio do tribunal finalmente decidir como a pena ser cumprida. Se condenado a at quatro anos de priso, o ru tem direito ao regime aberto. De quatro a oito anos o regime  semiaberto (ele apenas dorme na priso), e de oito em diante  cadeia.
LAURA DINIZ

NOTCIAS DO MENSALO
Durante o escndalo, VEJA dedicou 25 capas ao tema. Foram reportagens que trouxeram  luz revelaes e detalhes desconhecidos sobre aquele que se transformaria no maior caso de corrupo da histria  fatos que, depois, foram confirmados pelas autoridades e, agora, levam  condenao dos acusados..

O NCLEO FINANCEIRO (VEJA n 1906, de 25 de maio de 2005) - Depois de revelado o escndalo dos Correios, surgiu o nome de Delbio Soares como arrecadador do esquema. 
 invivel supor que tudo o que ocorreu no fosse do conhecimento do ru Delbio Soares. Ele prprio era um dos comandantes do esquema delituoso, ministro Luiz Fux.

DIRCEU APARECE (VEJA n 1907, de 1 de junho de 2005) - Roberto Jefferson ameaa entregar Dirceu, Silvio e Delbio  o que aconteceria uma semana depois numa entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. 
Viva o descompasso entre o PTB de Roberto Jefferson  que acabou prestando um servio ao pas  e o PT, ministro Marco Aurlio Mello.

NO PLANALTO (VEJA n 1911, de 29 de junho de 2005) - Em entrevista, Marcos Valrio confirmou suas visitas ao gabinete do ento ministro Jos Dirceu. 
 prova cabal (...) tanto que os dois operadores oficiais do chamado mensalo (Delbio e Valrio) participaram de reunies mantidas por Dirceu na Casa Civil com dirigentes de instituies financeiras, ministro Joaquim Barbosa.

O CONTRATO (VEJA n 1912, de 6 de julho de 2005) - Valrio e o PT so um s. VEJA revela a existncia dos emprstimos fraudulentos assinados por Jos Genoino. 
A declarao de que Genoino ignorava por completo o centro de distribuio de recursos parece-me menosprezar a inteligncia alheia, ministro Gilmar Mendes.

A ORIGEM DO DINHEIRO (VEJA n 1914, 20 de julho de 2005) - Lula foi avisado do mensalo e so reveladas as relaes entre Henrique Pizzolato, ex-diretor do BB, e Marcos Valrio.
Encontro prova de que Henrique Pizzolato realizou aportes indevidos para a agncia de Marcos Valrio e scios. A instituio autorizou vultosos repasses s agncias, ministro Ayres Britto.

O CHEFE DA QUADRILHA (VEJA n 1916, de 3 de agosto de 2005) - Assessor de Jos Dirceu foi autorizado a sacar dinheiro das contas de Marcos Valrio.
Restou demonstrado, no bastasse a ordem natural das coisas, que Jos Dirceu realmente teve uma participao acentuada, a meu ver, nesse escabroso episdio, ministro Marco Aurlio Mello.

O PT MENSALEIRO (VEJA n 1923, 21 de setembro de 2005) - VEJA mostrou o esfacelamento do patrimnio tico do PT com a farsa do caixa dois.
Estamos tratando de macrodelinquncia governamental, da utilizao abusiva, criminosa do aparato governamental ou do aparato partidrio por seus prprios dirigentes, ministro Celso de Mello.


2. O DILEMA DO VENCEDOR
O PSB de Eduardo Campos venceu o primeiro turno. Agora, ele precisa decidir se continua com Dilma ou disputa a Presidncia.
OTVIO CABRAL

     As ltimas cinco eleies presidenciais foram marcadas pela disputa entre PT e PSDB, partidos que tm estrutura em todo o pas e lderes capazes de atrair expressivas votaes. A tendncia era que a polarizao se mantivesse em 2014, com a presidente Dilma Rousseff buscando a reeleio contra o senador tucano Acio Neves. Mas as eleies municipais de domingo passado acrescentaram um novo personagem a essa disputa: Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB. Seu partido foi o que mais cresceu, aumentando em 40% o nmero de prefeitos e em mais de 50% o total de votos recebidos (veja os nmeros da eleio no quadro abaixo). Alm disso, Eduardo colheu vitrias pessoais sobre o PT  mais especificamente sobre o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva  ao eleger no primeiro turno os prefeitos de Recife e Belo Horizonte e chegar ao segundo turno em Fortaleza. Nas trs cidades, o PSB deixou a aliana com o PT para lanar candidatos prprios. Com o sucesso numrico e a afirmao como estrategista, Eduardo passou a ser apontado como possvel candidato a presidente. Cauteloso, ele no confirma a inteno, mas tambm no a nega.
     O fato  que as movimentaes de Eduardo acenderam um alerta no Palcio do Planalto. Na tera-feira passada, em reunio com ministros sobre o resultado das eleies, Dilma Rousseff avaliou que j  mais provvel ter o governador como adversrio do que como aliado em seu palanque de 2014. Por isso, ela decidiu ter uma conversa franca com ele e com o governador do Cear, Cid Gomes, logo aps o segundo turno. Dilma perguntar a eles se o PSB pretende apoiar sua reeleio. Se a resposta for positiva, ela oferecer ao partido dois ministrios de primeira grandeza  um deles dever ser o dos Transportes. Se Eduardo hesitar ou disser no, a presidente entender isso como um sinal de rompimento poltico e tirar o partido do comando da Integrao Nacional e dos Portos, ministrios que ocupa hoje. A presidente vai trucar o Eduardo. Ele vai ter de deixar claro qual  o seu projeto. A ideia  que em 2013 o ministrio seja composto s dos partidos que estiverem no palanque dela em 2014, afirma um ministro.
Dilma quer manter o PSB como aliado, pois v na candidatura de Eduardo um obstculo a dificultar sua reeleio. Os socialistas tm muita fora no Nordeste, regio tradicionalmente dominada pelo PT em eleies presidenciais. Acio Neves, o provvel candidato do PSDB, entraria na disputa como favorito em Minas Gerais, outra rea cara ao PT. O governo aposta que mais dois candidatos estaro na urna eletrnica: Marina Silva, que em 2010 teve quase 20 milhes de votos e est formando um novo partido, e Marcelo Freixo, do PSOL, que na semana passada recebeu 30% dos votos para prefeito do Rio de Janeiro. Com tantos candidatos tirando votos do PT, Dilma seguiria favorita, mas a possibilidade de a eleio ter dois turnos seria maior. E, nesse caso,  provvel uma aliana entre Eduardo Campos e Acio Neves no turno final  hiptese cogitada com temor no Palcio do Planalto. O sonho de consumo do PSDB  atrair Eduardo para ser vice na chapa de Acio, unindo o eleitorado do Nordeste e o de Minas Gerais. Os dois polticos so amigos e trabalharam em conjunto pela eleio de Marcio Lacerda  prefeitura de Belo Horizonte. Alm disso, h outras alianas importantes entre tucanos e socialistas, como em So Paulo e no Paran. Apesar desses fatores de aproximao, Eduardo j avisou que descarta a hiptese. Se for para romper com o PT e o governo, ser para lanar sua prpria candidatura e no para apoiar Acio. Ele considera que, mesmo se perder em 2014, fortalecer seu partido e seu nome, tornando-se mais competitivo em 2018.
     O crescimento do PSB pode ser explicado pela decadncia de PMDB e DEM, partidos que vm perdendo fora no Norte e no Nordeste. E pelo desgaste do PT em grandes centros graas ao mensalo. Embora tenha aumentado o nmero de votos e de prefeitos, o partido de Dilma e Lula verificou seu maior crescimento em cidades com at 20.000 eleitores e no Nordeste, onde o mensalo no tem tanta influncia. Nas grandes cidades, a avaliao do desempenho petista ainda depende do resultado em So Paulo, onde Fernando Haddad disputa o segundo turno com o tucano Jos Serra. O desfecho da eleio paulistana tambm ser levado em conta por Eduardo Campos para resolver seu dilema. 

PSB, O GRANDE VITORIOSO
O partido de Eduardo Campos teve o maior aumento do nmero de prefeitos eleitos.

NMERO DE PREFEITOS ELEITOS
PSB
2008: 310
2012: 433
VARIAO: 40%

PT
2008: 558
2012: 624
VARIAO: 12%

PSDB
2008: 791
2012: 692
VARIAO: -12%

PDT
2008: 352
2012: 309
VARIAO: -12%

PMDB
2008: 1201
2012: 1020
VARIAO: -15%

PARTIDO PROGRESSISTA
2008: 551
2012: 466
VARIAO: -15%

DEMOCRATAS 23
2008: 496
2012: 276
VARIAO: -44%

PSD
2008: 0 (O partido foi criado em 2011)
2012: 493
VARIAO: -

Fonte: TSE


3. A GRANDE BATALHA PT E PSDB
Partidos lanam toda a sua artilharia para ganhar a disputa pela prefeitura de So Paulo, que no tem um claro favorito a apenas duas semanas do segundo turno.

     Em So Paulo, o candidato que termina o primeiro turno na liderana sempre acaba eleito. A constatao, que se repete h vinte anos, desde que o segundo turno passou a existir nas eleies municipais, beneficia o tucano Jos Serra. Ao mesmo tempo, nunca o candidato que largou na frente nas pesquisas do segundo turno foi derrotado  e, nesse caso, as estatsticas favorecem o petista Fernando Haddad. Ele aparece com 47% contra 37% de Serra, segundo o Datafolha. Na noite de quinta, o Ibope confirmou o favoritismo do petista: 48% contra 37%.
     No primeiro turno, Serra e Haddad tiveram, juntos, 3,66 milhes de votos, de um total de 8,62 milhes de eleitores. Isso significa que quase 60% dos paulistanos no escolheram nem um nem outro. A tarefa de ambos agora  tentar atrair essa massa que os rejeitou. Celso Russomanno (PRB), lder na maior parte da campanha e autoejetado dela em razo de uma desastrada proposta de criar uma tarifa de nibus proporcional ao trajeto (que acabaria por penalizar quem mora mais longe do trabalho, ou seja, os mais pobres), declarou-se neutro. Seu partido queria um ministrio em troca do apoio a Haddad, mas no foi atendido. Ainda assim, a maior parte de seus eleitores, concentrada na periferia, deve migrar para o petista. So pessoas que tradicionalmente votam no PT, mas que se deixaram seduzir pelo defensor dos consumidores que fez fama na TV. O quarto colocado, Gabriel Chalita (PMDB), anunciou apoio a Haddad (custo para o PT: cargos na prefeitura e mais espao no governo federal), mas seus eleitores no necessariamente o acompanharo. A maior parte deles vive nos bairros centrais. L, o desempenho de Serra foi bom e pode melhorar. Mas a regio que pode decidir a eleio  aquela dos bairros que ficam entre a periferia e a zona central. Nessa rea, formada por bairros como Tatuap, Mooca e Jabaquara, a votao oscila de uma eleio para outra  ao contrrio do que ocorre na periferia, solidamente petista, ou na regio central, maciamente tucana.
     O que est em jogo  mais que o comando da maior cidade do pas. Em mbito nacional,  a eleio mais importante para PT e PSDB e, em especial, para seus mais notrios representantes. Depois de derrotas no Recife e em Belo Horizonte, o ex-presidente Lula aposta tudo em Haddad. J Serra sabe que um eventual fracasso diminui drasticamente seu poder de ditar os rumos da oposio. Sero duas semanas de guerra. Por enquanto,  impossvel saber quem ser o sobrevivente. 

QUEM VAI COMANDAR A MAIOR CIDADE DO PAS?
Os nichos que cada candidato precisa atacar para vencer a eleio.

FERNANDO HADDAD
 Atrair eleitores de Celso Russomanno na periferia. Foi l que o candidato do PRB mais roubou votos do petista no primeiro turno.
 Conquistar eleitores da periferia tradicionalmente ligada ao PT. Seu desempenho nesse grupo ficou bem abaixo da mdia histrica.
 Aumentar sua votao nas regies mais prximas do centro, rea que concentra o maior nmero de indecisos.

JOS SERRA
 Atrair eleitores de Gabriel Chalita (PMDB), com foco no centro, regio onde o peemedebista mais tirou votos do tucano.
 Conquistar eleitores de Celso Russomanno (PRB) no centro expandido. Nessa rea, a votao do tucano foi menor que em outras eleies.
 Investir nos bairros entre o centro e a periferia, regio que pode ser o fiel da balana.

JULIA CARVALHO E OTVIO CABRAL


4. NOVO GOLPE NO TRFICO
Um vdeo obtido por VEJA expe o poder da bandidagem na regio do Rio conhecida como Faixa de Gaza. A chegada de uma UPP pode pr fim aos tempos de terror.
LESLIE LEITO

     Desde a ocupao do Complexo do Alemo pela polcia do Rio de Janeiro, em novembro de 2010, duas perguntas pairavam no ar. A primeira: onde foram parar os marginais flagrados pelas cmeras de televiso fugindo mata adentro? E que favela sucedeu ao Alemo no papel de maior entreposto de drogas da cidade? Segundo investigaes ainda em curso da Polcia Civil, a cujos detalhes VEJA teve acesso, a resposta  uma s: os cabeas da gangue do Complexo do Alemo se encastelaram na regio de Manguinhos e Jacarezinho  aglomerado de cinco favelas na Zona Norte onde est fincada a maior cracolndia carioca  e converteram o lugar na nova central do crime na cidade. No encontraram resistncia, como mostra de forma inequvoca um conjunto de vdeos que perfazem mais de dez horas de gravao e escancaram a impunidade nesse naco do Rio conhecido como Faixa de Gaza. As imagens so a evidncia inconteste da extenso do poder dos criminosos naquela rea, onde vivem quase 100.000 pessoas e os bandidos se sobrepem  lei h mais de duas dcadas. Neste domingo, 14, ela ser ocupada para a instalao de duas Unidades de Polcia Pacificadora (UPP), o primeiro passo para dar fim aos desmandos da bandidagem.
     Numa sequncia filmada em agosto passado, choca a naturalidade com que os marginais tocam suas atividades criminosas sem se preocupar com a discrio. Ao contrrio:  luz do dia, cinco homens contam o dinheiro separado em centenas de pilhas sobre a mesa de um bar, enquanto comparsas ostensivamente armados  um deles usando um cinto abarrotado de munio  entram e saem do estabelecimento, situado em uma das principais ruas da favela. Duas mulheres grvidas com seus filhos compram comida no balco ao lado. Crianas brincam junto a um ponto de venda de cocana. Em outro trecho, v-se a droga estocada em grandes bacias e sendo embalada em pequenos sacos plsticos. Os bandidos trabalham sob as ordens de Marcelo Fernando Pinheiro Veiga, 37 anos, conhecido como Piloto. Segundo a polcia, nos ltimos dois anos ele se tornou o mais poderoso traficante ainda  solta no Rio de Janeiro.
     As UPPs em Manguinhos sucedero a outras 28 dessas bases permanentes da polcia j fincadas pelo estado em redutos do crime. Uma fora-tarefa formada por policiais civis e militares e blindados da Marinha tomar a rea, ocupando seus pontos estratgicos. Com a ao, a polcia pretende asfixiar mais uma artria fundamental para os negcios da maior faco criminosa do Rio, o Comando Vermelho. Guarnecido de 100 fuzis, esse quartel-general do trfico chama ateno pela ousadia dos criminosos que abriga. Nas ruas da Faixa de Gaza, nunca entra policial depois das 6 da tarde. Os tiroteios so to comuns que a vizinha Fundao Oswaldo Cruz, a Fiocruz, mandou blindar as janelas do castelo onde funciona sua sede. Numa demonstrao de fora, em julho passado dez homens da quadrilha invadiram uma delegacia para resgatar um comparsa que havia sido preso horas antes. Esse traficante, Diogo de Souza Feitosa, o DG, aparece livre nas ruas da favela no vdeo obtido por VEJA. Exibe uma generosa coleo de cordes e anis de ouro e paga doces s crianas. O reinado da gangue de Manguinhos ergueu-se sobre o assistencialismo e o terror. Ali so frequentes os tribunais do trfico, em que o chefe do bando d a sentena final. Dois anos atrs, quinze viciados em crack que importunavam moradores da regio foram executados a bala e tiveram o corpo esquartejado e lanado  fogueira.
     A polcia tambm descobriu que a bandidagem de Manguinhos expandiu suas atividades para alm do trfico e da venda de armas, esparramando seus tentculos pelo Programa de Acelerao do Crescimento (PAC), do governo federal. Esse complexo de favelas foi o primeiro na cidade a receber os conjuntos habitacionais do PAC  um investimento de 660 milhes de reais. O inqurito policial concluiu que os traficantes haviam se apropriado de dezenas desses imveis, que passaram a alugar, vender e at a usar como esconderijo. Consta que s Marcelo Piloto, o chefe da gangue, tem sob seu poder as chaves de doze apartamentos. Alvo de quinze mandados de priso, ele  acusado de uma extensa lista de crimes  trfico, homicdio, assaltos e formao de quadrilha. Piloto est foragido h cinco anos, mas at a semana passada circulava como um rei por seu territrio. E ainda posava de lder comunitrio: nos vdeos, ele aparece despachando com moradores, que fazem fila para lhe pedir que resolva brigas de casais e de vizinhos e providencie remdios e comida. Ao ouvirem rumores de que a polcia ocuparia a rea, Piloto e seus comparsas evaporaram de Manguinhos, dando sumio tambm ao arsenal que, a esta altura, deve estar bem guardado em outra favela. Que a polcia comece j a caada ao bando  a tempo de evitar que se erga mais um QG do crime no Rio. 


